Os negócios entre Brasil e Flórida: tem muito acontecendo, mas é só o começo

Sueli Bonaparte conhece as relações de negócios entre Brasil e EUA como poucos. Ela atua nesse segmento desde o começo dos anos 90, quando exerceu, entre outras atividades, o cargo de diretora executiva da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos de Nova York. Nos 17 anos em que exerceu esse cargo, Sueli ajudou a impulsionar a câmara à condição de principal fórum de negócios entre os dois países. Nascida e criada em Mirassol, no Estado de São Paulo, Sueli veio para os Estados Unidos em 1984 e de lá para cá tem se dedicado de corpo e alma ao desenvolvimento das relações comerciais bilaterais entre os dois países.

Em 2014, Sueli lançou sua mais nova empreitada, o Brazil Florida Business Council. Baseado em Tampa, no oeste da Flórida, O BFBC tem o objetivo de dinamizar o comércio e as relações empresariais entre o Brasil e seu principal parceiro nos EUA, a Flórida, e ajudar empresas e investidores das duas regiões a identificar oportunidades de negócios promissoras.

Você tem estado envolvida nas relações de negócios entre Brasil e EUA desde os anos 90. O que mudou de lá para cá?

Nos últimos anos apareceram dois perfis de imigrantes brasileiros. Os “residentes”, que escolheram a Flórida para morar, devido aos problemas decorrentes da crise econômica e política no Brasil, mas que continuam a manter seus negócios no Brasil.

E também os “investidores/empreendedores”, que resolveram deixar o país e investir em negócios similares aos que tem no Brasil. São agências de viagens, imobiliárias, restaurantes, escolas, academia de esportes, centros religiosos e até mesmo instituições financeiras, como foi o caso do C1 Bank (banco comunitário sediado em Tampa, que tinha 30% de capital brasileiro).

Sueli Bonaparte – Brazil Florida Business Council

Sueli Bonaparte – Brazil Florida Business Council

E com relação aos investimentos estrangeiros no Brasil?
Com a diminuição no preço dos ativos brasileiros em função da crise e da alta do dólar, o investidor americano tem sido agressivo na aquisição de empresas no Brasil. Mas se faz muito pouco para posicionar o país como destino de investimento internacional. Veja o caso de países como Irlanda e Cingapura, por exemplo. Eles fazem um excelente trabalho para promover os seus respectivos mercados. A Irlanda atraiu mais de 700 empresas americanas, e US$ 277 bilhões só nas últimas duas décadas. O país é reconhecido pela baixa tributação corporativa.

O que mais o Brasil poderia fazer para atrair mais investidores?
Os países mencionados estabeleceram, com apoio do setor privado, Conselhos Empresariais em cidades americanas para apoiar as empresas e fomentar negócios. Também apoiam as start-ups na busca de investidores e no estabelecimento de parcerias, como faz Cingapura em Massachusetts e no Vale do Silício.
As lideranças empresarias brasileiras precisam ser mais proativas. Se a Irlanda conseguiu, porque o Brasil, que é uma das maiores economias do mundo, não consegue deslanchar?

Como está o interesse do empresário americano diante da crise econômica brasileira? Ele continua interessado em investir no Brasil?
Sem dúvida. Recentemente, um evento do Brazil-Florida Business Council, sobre fusões e aquisições no Brasil, atraiu 90 empresários e investidores interessados na compra de empresas Brasileiras. Como disse David Neeleman, fundador da Azul Airlines, recentemente em um dos nossos eventos, este é o momento ideal para investir no Brasil, as oportunidades de negócios são tremendas. Os investidores sabem que é em tempos de crises econômicas que surgem as melhores oportunidades de negócios.

Você tem exemplos desse interesse?
Em 2015 dois de nossos associados foram envolvidos em aquisições de empresas brasileiras. A Brandt, uma empresa no setor de agricultura, adquiriu uma participação majoritária na Target Brasil Fertilizantes, de Londrina. O fundo privado AFLF Investments de Tampa foi responsável pela venda da Quimetec de Araraquara para a firma Solenis, líder mundial de produtos químicos para os mercados de celulose, papel, petróleo, mineração e energia.

Quais os setores no Brasil que mais tem atraído investidores americanos?
O interesse do empresariado americano no Brasil é amplo e diversificado. Temos visto um forte movimento em setores como agronegócios, educação, saúde, seguros, energia, petróleo e gás, varejo e infraestrutura. Ou seja, tem um pouco de tudo.

Como anda atualmente a disposição do empresário e empresas brasileiras em ingressar no mercado americano?
A disposição é grande. O número de consultas aumentou muito no ano passado. E oportunidades existem, pois além do tamanho do mercado, a economia americana se encontra numa boa fase. E isso tem despertado o interesse de empresários brasileiros. No entanto, a alta do dólar faz com que eles sejam cautelosos e reflitam bastante antes de tomar uma decisão.

Quais os setores nos EUA que mais tem atraído investidores brasileiros?
Existe muito interesse em imóveis comerciais, e que são alugadas a bancos, franquias e outros tipos de negócios. Outros setores onde tenho visto investimento brasileiro são academias esportivas, franquias, lojas de decoração e escolas infantis.

E quais setores no Brasil oferecem boas oportunidades que ainda não foram notados pelos americanos?
Cosméticos, alimentos e bebidas, frutas e legumes, e flores, são setores onde o Brasil tem vocação e competitividade, e que poderiam ser melhor explorados.

Quais os principais defeitos do empresário brasileiro que ingressa no mercado americano?
Existe um desconhecimento das diferenças culturais. Por exemplo, as reuniões envolvendo empresários brasileiros são muito longas e pouco objetivas, e isso frustra o americano.

Apesar do poder econômico mais elevado desta nova onda de imigrantes, poucos tem domínio do inglês. Mas ainda que isso seja um inconveniente, não chega a ser um obstáculo para o sucesso no mercado americano. Para isso é muito importante encontrar o apoio de professionais competentes e éticos dentro da comunidade. Toda semana somos procurados por empreendedores prejudicados por consultores inescrupulosos ou sem o devido conhecimento do mercado.

Que qualidades do empresário brasileiro se destacam nos EUA?
O empresário brasileiro sempre foi criativo, flexível e persistente. Com um pouco mais de disciplina e objetividade, tem tudo para conquistar a América.